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a política e a caricatura
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| A política, a anedota, a caricatura e o cartoon em Portugal |
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O escárnio, o sarcasmo, a ironia, a caricatura, o simples humor, diversas espécies de crítica mais ou menos ofensiva, mostrando as fraquezas alheias e provocando o riso, a risota ou apenas facilitando o entendimento imediato do que se pretende criticar, sempre foram usadas na política. Uma boa piada, um bom dichote, sempre tiveram efeitos muito mais divulgados e duradouros do que profundos e elaborados discursos.
A divulgação da imprensa permitiu, a partir dos princípios do século XVIII a proliferação de jornais, folhas e panfletos, alguns com folhetins “de cordel”, outros com informações úteis do estilo almanaque, mas outros ainda, a maior parte clandestinos com crítica social e política.
O desenho humorístico terá começado pela caricatura, entendida como um retrato grotesco onde se acentuavam as características físicas e aspectos da expressão mais significativos do retratado, inicialmente como simples exercício de estilo ou de humor. Jacques Callot (século XVII) tê-la-á praticado inspirado pela figuração da commedia dell’arte; e foi depois seguido por muitos mais artistas, não de forma sistemática, mas por simples divertimento ou para ridicularizarem, a rogo, determinadas figuras de quem não gostavam. O primeiro profissional da caricatura terá sido o italiano Pier-Leone Ghezzi, nos princípios do século XVIII, grangeando o estatuto de artista, muito procurado e bem pago pela aristocracia romana da época. Em Inglaterra sobressai William Hogarth (m.1764), com as suas ferozes críticas sociais, à sociedade londrina da época, em pintura e, sobretudo, gravura. Estas não constituíam propriamente críticas políticas, só indirectamente focando personalidades ligadas ao poder.
Foi com a revolução francesa que a caricatura e o desenho humorístico se tornaram politicamente “engajados”, se bem que tenha sido em Inglaterra que tiveram o seu maior desenvolvimento na época. Ficaram por exemplo imortalizadas as gravuras de Cruikshank (m.1878) sobre a diplomacia europeia da época napoleónica e as caricaturas do imperador (onde Portugal surge muito ridicularizado), bem como os desenhos e gravuras de James Gillray (m.1815) e de Rowlandson (m.1827), todos ingleses, que se podem considerar os “pais” do desenho humorístico de índole social e político.
Em Portugal, devido aos rigores da censura no absolutismo, só se começam a publicar jornais e gravuras de conteúdo humorístico político nos anos 30 do Liberalismo, com ataques contra as forças mais reaccionárias de então, os miguelistas, aos múltiplos lideres das diversas revoluções que aconteceram na época, ou com referência a algum escândalo que viesse a lume (não nos esqueçamos que se vivia na época chamada dos “devoristas”).
Por volta dos anos 40 do século XIX, a principal figura política “vítima” dos desenhos e das críticas era Costa Cabral, normalmente representado em caricatura com pés de bode, como na figura 1, do suplemento humorístico de Janeiro de 1850 do jornal “O Patriota”, fundado em 1838. Na figura prepara-se para apagar uma vela onde está escrito “Liberdade de Imprensa”, num processo que antecedeu a famosa “Lei da Rolha” que haveria de dar muita matéria para publicação.
No estrangeiro, e apesar da Inglaterra manter o seu estilo típico de “humour”, no Punch, por exemplo (que mesmo presentemente ainda tira mais de 30.000 exemplares), foi a França com alguns desenhadores, de que ressalta Honoré Daumier, que mais influenciou os intelectuais e artistas nacionais, com repercussões na caricatura e no próprio estilo de crítica política. Destacam-se, em Portugal, Nogueira da Silva e Manuel de Macedo (m.1870).
Pelo anos 60 do oitocentos começou a ser Fontes Pereira de Melo a principal figura caricaturada, aproveitando a liberalidade do regime parlamentar monárquico, se bem que entrecortado por surtos de censura e perseguição política aos jornalistas e desenhadores. Fontes esteve várias décadas no poder, pelo que deixou toda uma iconografia de caricaturas que saíam nos jornais humorísticos e abundantes da época. O nosso conhecido Rafael Bordalo Pinheiro não o poupou.
Na figura 2, de 1885, Bordalo Pinheiro brinca com o anúncio da “Emulsão Scott” na base de óleo de fígado de bacalhau, tortura revigorante para umas três gerações de jovens. O bacalhau, pescado na costa da Parvónia, segundo a legenda, é por Bordalo substituído pelo Zé Povinho, espremido pelos impostos e custo de vida, necessários para pagar todo o “fomento” de Fontes, que substitui o pescador original.
Posteriormente, os ataques concentram-se nos políticos do rotativismo dos últimos tempos da Monarquia, começando a aparecer desenhos de propaganda republicana pelos finais do século, e que foram proliferando nas penas de Rafael Bordalo Pinheiro, de Celso Hermínio, de Francisco Valença, de Leal da Câmara e de outros desenhadores, que chegaram, alguns, a ser presos, especialmente durante a ditadura de João Franco. Pode dizer-se com propriedade que muitos desses órgãos humorísticos contribuíram de forma decisiva para a criação do clima que haveria de levar ao regicídio e à República.
Na figura 3, Leal da Câmara, que trabalhava então para a L’Assiette au Beurre, em Paris, aproveitou a visita do rei D. Manuel II para o pôr sentado em cima do Zé Povinho, perante uma República francesa indignada.
O regime parlamentar degrada-se eticamente e Bordalo desenha a Política como “a grande porca” (figura 4) numa Paródia de 1900, que bem caracterizava a desconsideração a que o regime tinha chegado então, abundantemente glosado no António Maria, nos Ridículos, no Berro, na Marselheza, no suplemento humorístico do Século, no Diabo, na Paródia, no Vira e em tantos outros jornais humorísticos, que entre anedotas, pequenas notícias e anúncios, criticavam os partidos e os seus próceres através da caricatura e do ridículo.
Mas a crítica política não se limitava aos políticos e atacava os costumes que viciavam os governos e o país, o “sistema”, como hoje em dia diríamos.
São temas que ainda hoje se mantêm actuais e referem-se “à carneirada” em que se havia transformado o povo eleitoral, à corrupção, “às cunhas das empenhocas” (figura 5, de Celso Hermínio, na Paródia de 1902), à burocracia e à generalizada política de negócios, questões onde o país pouco ou nada evoluiu.
Com os primeiros tempos da República aparecem novos jornais que criticam os comportamentos e a “balda” do novo regime, os “adesivos” (vira-casacas) ex-monárquicos e todo o jogo politico de um regime parlamentar praticamente dominado, através de um sistema eleitoral feito à medida, pelos “democráticos” de Afonso Costa. É o período onde são os jornais monárquicos que mais se demarcam pelo seu pendor crítico, nomeadamente O Thalassa e o Papagaio Real, em competição com jornais republicanos, mais ou menos afectos aos diversos lideres e partidos rivais decorrentes da fracção do PRP (Partido Republicano Progressista), mas que se foram com o tempo acomodando ao poder.
Os arranjos e coligações entre os três partidos mais representativos, o Democrático, de Bernardino Machado e Afonso Costa, o Evolucionista, de António José de Almeida e o Unionista, de Brito Camacho, deram origem então e durante uns anos, a uma quantidade de desenhos sobre o assunto. Na figura 6, um postal não assinado, a oposição monárquica representa os quatro lideres em grande comezaina e com a legenda “Enquanto que os pequenos gosam (sic) as amarguras das prisões… Estes comem com apetite e batem-se como leões”.
Estes lideres, inicialmente quase endeusados pelo povo republicano, começam a ser contestados e alguns mesmo odiados por algumas das facções, o que culmina em revoltas militares sucessivas e num clima de instabilidade política que acaba por originar o golpe militar do 28 de Maio, que depois descambou, como se sabe, para o salazarismo. A “porca da política” volta a ser apresentada como símbolo do sistema, vinte e três anos depois da do Bordalo, assinada por Adão (figura 7). Os bacorinhos agora são outros e refocinham em notas de banco enquanto o Zé Povinho protesta indignado brandindo um papel onde se lê “circulação fiduciária milhões de contos”. Na altura eram os partidos “independente” e o “democrático” que estavam a comer, mas o “liberal”, o “reconstituinte” e o “outubrista” aguardavam a sua vez, enquanto o “monárquico”, franzino, se estirava, afastado da manjedoura.
É também a altura em que aparecem os desenhadores “modernistas”, com Almada Negreiros, Emmerico Nunes, Cotinelli Telmo, Rocha Vieira e outros, que suportaram vários Salões de Humoristas Portugueses, mas que raramente faziam sátira política.
Depois, com a reposição da Censura, a crítica social e política quase que se cala por quarenta anos, a partir da década de trinta. Mesmo artistas que haviam demonstrado, na década anterior particular virulência, limitam-se a protestar contra a Censura, a fazer desenhos de branda crítica social, a ilustrarem anedotas ou a fazerem caricaturas a rogo para ganharem a vida.
Foram raros os jornais humorísticos de carácter crítico-político durante o salazarismo. Praticamente apenas “Os Ridículos”, o “Sempre Fixe” e poucos mais se arriscaram a ligeiras notas de humor sobre o regime, que eram sistematicamente cortadas pela Censura. Stuart Carvalhais e Francisco Valença foram os mais notáveis desenhadores críticos desse tempo. Nos anos 60 os mais conhecidos foram João Abel Manta, com altíssima qualidade gráfica, mas que pouco publicou na imprensa diária e Sam, o criador do Guarda Ricardo, que grangeou na época imensa popularidade. Terá sido nessa década que nasceu o “cartoon”, de tradição americana, não especificamente de intuitos políticos, mas que, com Quino e a sua Mafalda, representaram a critica social na Argentina, então em circunstâncias semelhantes a Portugal e, como tal, tiveram grande popularidade por cá. Na anedota ilustrada anti-sistema, com um humor escatológico e muito popular, é de referir Vilhena, um caso notável de independência e de sobrevivência das suas publicações, apesar de uma particular sanha da censura.
Após o 25 de Abril a generalidade dos desenhos e do seu conteúdo baixou muito em qualidade, tendendo para o cartaz propagandístico, quando muito para o sarcasmo soez. Na sequência do Maio 68, alguns títulos ainda tentaram imitar o estilo do Hara-Kiri, do Le Canard Enchainé ou do Charlie Hebdo, mas o resultado não teve a qualidade e a força cultural que Bosc, Siné, Cavanna ou Cabu lhes haviam conseguido imprimir. É também a altura em que surgem, com Coluche, por exemplo, os primeiros casos de políticos que usam o ridículo, activamente, como argumento político e eleitoral.
Só a partir dos anos 80/90, se bem que jornais e suplementos humorísticos tenham praticamente desaparecido (ressalvando presentemente o IP, suplemento do Público, que cultiva um estilo muito baseado no “non-sense”), se cria o costume de cada jornal publicar “cartoons” de conteúdo crítico sobre temas da actualidade, onde se revelam verdadeiros expoentes nessa matéria, como, por exemplo, Augusto Cid e Luis Afonso. A própria caricatura, fruto das novas tecnologias das artes gráficas, evoluiu grandemente, sendo portugueses dois ou três dos maiores nomes internacionais nesta forma de arte. Justifica-se assim a série dos CTT sobre caricaturistas, com Rafael Bordalo Pinheiro, Sebastião Sanhudo, Celso Hermínio, Leal da Câmara, Valença, Stuart, Sam, Alamada Negreiros, Cid e António.
Cada vez mais, os cartoonistas influem na forma de pensar (e de entender) a política em Portugal. O facto de existir uma enorme iletracia e a dificuldade da generalidade do Povo em pensar e mesmo em ler, contribui certamente para tal, constituindo o desenho uma forma fácil e imediata de transmissão da mensagem política, para que é dificílimo, se possível, arranjar antídoto. E quanto mais subtil, mais imaginativa, mais original, maior efeito produz.
Já Proudhon, na sua “Confession d’un révolucionnaire” dizia:
“Ironia! Verdadeira liberdade, és tu que me libertas da ambição do poder, da servidão dos partidos, do respeito pela rotina, do pedantismo da ciência, da admiração das grandes personagens, das mistificações da política, do fanatismo dos reformadores, da superstição deste grande universo e da adoração de mim próprio”.
Que viva o humor, pois.
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Nº 001 . JULHO 2008
DOSSIÊ
NOTÍCIAS
DA CORRENTE SOCIALISTA
OPINIÃO
A POLÍTICA E A CARICATURA
A política, a anedota, a caricatura e o cartoon em Portugal

Figura 1

Figura 2

Figura 3
Figura 4

Figura 5

Figura 6
Figura 7
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