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dossiê
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| Empregabilidade permanente? |
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Transformado em problema político, económico, social e científico - com rasgos de mediatismo crescente -, a inserção profissional dos jovens em geral, e dos diplomados em particular, parece submeter-se a uma operação de alquimia simbólica. A proliferação de dispositivos legais, de estratégias de flexibilidade e de pressões profissionais que se instalam no reconhecimento dos diplomas e respectivos saberes (re)produzem uma crescente heterogeneidade e hierarquização de estatutos sociais por referência à relação entre trabalho e emprego. Temos, assim, uma panóplia, deveras expressiva da heterogeneidade de base dos grupos sociais envolvidos: os “estáveis”, os “precários”, os “estagiários”, os “formandos”, os “bolseiros”...
As consequências em termos da orientação da intervenção dos poderes públicos foram definidas no passado nos quadros comunitários de apoio e presentemente no Programa Operacional do Potencial Humano - QREN (2007-2013), em especial no que diz respeito à melhoria dos processos de transição para o mercado de trabalho com base numa cultura científica e de aprendizagem ao longo da vida. Com efeito, as suas linhas estratégicas são expressivas da conversão do problema de inserção na “promoção de empregabilidade” de grupos sociais com escassa qualificação e com maiores riscos de desemprego de longa duração e do papel facilitador da transição da escola para a vida activa.
A valorização de um potencial estratégico individual visível nos discursos mobilizados tanto pelos jovens, como pelos diferentes protagonistas implicados neste processo (e.g. responsáveis pelas políticas públicas ou privadas de formação e emprego), é visto, para muitos dos que se dedicam aos estudos da gestão de recursos humanos ou dos responsáveis pelas políticas de procura de emprego, como um modelo alternativo. Este consubstancia-se na retórica do indivíduo dotado de qualificações certificadas, autor da sua própria carreira que deve desenvolver continuamente as suas competências, os seus projectos pessoais, privilegiando a mobilidade profissional entra e inter empresas. Acentua-se, por conseguinte, a visão individualista dos fenómenos de emprego e desemprego, na sua versão ortodoxa neoliberal das décadas 50 e 60 do século passado, e secundarizam-se as preocupações em torno da persistência ou, em certos casos, de agravamento de certos processos de desigualdade social, fruto da crescente desarticulação e complexidade dos contextos produtivo e reprodutivo. Com efeito, a precarização, a flexibilização da mão-de-obra e a externalização dos custos de produção (com recurso à subcontratação) têm permitido que se legitime uma fragmentação social crescente. Às oposições clássicas entre os operários e burgueses, a composição social actual apresenta outras fragmentações assentes na luta pela classificação de “inseridos” no mercado de emprego: entre jovens (e o acesso ao primeiro emprego) e os activos adultos que receiam perder o seu lugar de trabalho; entre homens e mulheres que têm de partilhar em conjunto soluções - parte delas ainda por inventar - para novos papéis familiares e profissionais; entre os trabalhadores nacionais e os imigrantes de países diversificados, em especial do continente Africano e da América do Sul.
Ora, as pressões no sentido de uma “empregabilidade permanente” de todos e cada um dos trabalhadores desloca a análise da inserção, que se tinha focalizado, até então, na (des)articulação entre educação e emprego, para os comportamentos, as atitudes e os saberes a possuir, definindo-se um potencial trabalhador a inserir ou a não inserir. A fluidez das competências requeridas, das práticas e modalidades de gestão da mão-de-obra permitem estratégias diversificadas de negociação no momento de recrutamento. Compreendem-se assim as relações de força entre os intervenientes neste processo, no sentido de definição das suas competências e saberes. Por exemplo, a importância psicológica e social dos estágios ou dos programas ocupacionais, que apelam para formulação de um “projecto” e para a “responsabilização”, nem sempre corresponde consequentemente a empregos económica e profissionalmente satisfatórios. Parece que, novamente, o “olhar” se orienta para uma individualização do processo de inserção.
Por sua vez, os que não possuem um emprego são, igualmente, objecto de uma redefinição conceptual. Não se trata mais de um inactivo, situado nas margens do emprego, mas de um inadaptado, isto é, de alguém que apresenta um handicap social. A falta de qualificações, as dificuldades de inserção profissional são identificadas como incapacidade, inaptidão, sinónimo de “(in)empregabilidade”. Estes para acederem ao emprego precisam de se sujeitar a um trabalho mais ou menos longo de “readaptação” social e profissional, sendo, em última instância, a própria causa da sua não empregabilidade.
Esta redefinição de desempregado é solidária com uma visão do mundo que divide os “incluídos”, os “integrados”, dos “excluídos”, dos socialmente marginalizados, para além dos que se encontram numa relação precária de emprego. As “vítimas” e os seus “défices” monopolizam novamente a atenção. São sobretudo as lógicas que se apresentam sob a noção de “empregável” que nos permitem compreender os requisitos indispensáveis para que se torne legítima socialmente a própria noção de “desempregado” e de “desemprego”.
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Nº 001 . JULHO 2008
DOSSIÊ
Empregabilidade permanente?
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