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ISSN 1647-0435
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Nº 001 . jul08 > opinião
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As margens do rio
 
Quando confrontados com a percepção da questão de esquerda/direita pelas gerações mais recentes percebemos serem conceitos que a elas escapam. Não surpreende, uma vez que, sobretudo se estivermos a falar de gerações posteriores à queda do muro de Berlim, as verdades conhecidas de um e de outro lado registadas na História contêm todo o tipo de atrocidades, injustiças, atentados à condição humana e às liberdades individuais. Essas gerações sabem que, tanto na União Soviética como em Cuba, foram e são aplicadas medidas tão repressivas como no Chile de Pinochet ou nas ditaduras ibéricas anteriores à democracia, e sabem que o esquerdismo bolivarista de Chavéz ou as políticas de trabalho e direitos humanos da China têm o mesmo grau de humanidade e tolerância.

Nós que nos reclamamos do socialismo democrático, mais do que estarmos preocupados com o conceito dualista de esquerda e direita, deveríamos olhar para os problemas da actualidade que, por não terem sido o fulcro do nosso discurso e das nossas práticas, contribuíram para deixar o Mundo em estado avançado de decomposição social, num fosso cavado de desigualdades e em risco de fazer perigar o próprio equilíbrio do Planeta. Não se pretende fazer a apologia de combate aos conceitos filosóficos e sociológicos subjacentes à diversidade de posicionamentos idelológicos, nem o abandono dos projectos que lhes estão subjacentes, mas antes de repensar o conceito de esquerda à luz dos novos desafios e para eles apresentar soluções e oportunidades, identificando os constrangimentos que podem comprometer o seu sucesso.

Hoje, ser de esquerda, da nossa esquerda democrática e livre, exige mais do que retórica política ou conceitos genéricos perante as reais dificuldades. Tem de ser militância na defesa dos consumidores, na defesa dos injustiçados, na defesa dos explorados (sejam pelos privados ou pelo Estado), na defesa ecológica do Planeta, na luta contra todos os tipos de discriminação e, acima de tudo, na defesa da liberdade de expressão e de opinião e na defesa intransigente da igualdade de oportunidades. O socialismo democrático que defendemos tem de fazer tomar consciência que é nos princípios programáticos de solidariedade, fraternidade e equidade que residem as soluções para o combate eficaz ao capitalismo selvagem, ao egoísmo, à exploração e à institucionalização desregulamentada do domínio do privado sem demarcação dos sectores estratégicos que deverão continuar na orientação do Estado. O capitalismo radical esconde-se atrás das palavras liberalismo e globalização para disfarçar a especulação e o oportunismo com que fomenta o concurso de conceitos desiguais de segurança social, direitos humanos e mínimos de dignidade.

Nós, os que nos revemos naquilo que designamos por socialismo democrático, temos de acreditar que é nesses princípios que reside o objectivo da qualidade da democracia humanista e repudiar que se possa meter na gaveta os nossos fundamentos por entendermos que soluções diversas são soluções mais eficazes. Mesmo em alturas de apertos e sacrifícios, não poderemos perder de vista a humanidade que o socialismo democrático comporta, nem desviar-nos do horizonte alcançável pela igualdade de oportunidades e pela manutenção da dignidade humana. É na consolidação dos combates à miséria e à iliteracia, na aplicação eficaz da justiça, no incentivo ao mérito e na protecção do ambiente que reside a construção de uma cultura sólida de defesa dos consumidores só alcançavel pela consciência de cidadania. Temos de ser os rios que levam tanto sonho à flor das águas, os rios que sossegam quando, ao galgarem as margens direita e esquerda, levem as mágoas e concretizem os sonhos. Não nos podemos deixar na quietude das palavras.

Nº 001 . JULHO 2008


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