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ISSN 1647-0435
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Nº 001 . jul08 > opinião
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"Abril e Maio, Agora Aqui”
 
Agora, aqui é preciso fazer alguma coisa para alterar a situação que vivemos, o tempo urge e como refere Manuel Alegre no poema é preciso “Na minha bicicleta de recados … ir pelos caminhos”. Desta vez o recado foi dado em forma de apelo, por pessoas vindas de diferentes percursos da esquerda, mas que têm em comum não se resignarem perante as dificuldades. A festa “1974-2008, Maio Abril, Agora Aqui” decorreu a 3 de Junho no Teatro da Trindade (TT) em Lisboa e no Espaço Chiado onde as centenas de pessoas que não couberam no TT assistiram à festa em directo através de um ecrã gigante. Juntou-se Gente que continua a ter no seu imaginário a associação entre o 25 de Abril e o 1º de Maio de 1974 e os valores da liberdade e democracia. Gente que está disposta a resistir!

Esperava um acto cultural com significado político pois, como Manuel Alegre referiu a Mário Crespo, “o TT é um espaço iminentemente cultural”. Pois bem, encontrei um acto político imbuído de significado cultural. A banda “Rádio Macau”, António Manuel Ribeiro e os Terrakota fizeram a festa através das cantigas. Seguiram-se as intervenções de José Moura Soeiro do Bloco de Esquerda, da professora catedrática Isabel Allegro Magalhães e do deputado Manuel Alegre. De forma diferente, mas tendo em comum o seu desacordo sobre o paradigma de desenvolvimento da sociedade ocidental e concretamente sobre Portugal, os oradores propuseram novas alternativas de crescimento social e económico. Pronunciaram-se sobre os direitos das minorias, mulheres e imigrantes. Reflectiram sobre ética, emprego, justiça social e preservação dos serviços público. Do meu ponto de vista, talvez Isabel Allegro tivesse feito o discurso mais contundente da noite terminando-o com a proposta de a festa “ter futuro: no patamar de uma nova e eficaz solidariedade à esquerda”.

Manuel Alegre protagonizou a intervenção mais aguardada. Referiu que se estava a quebrar o tabu de que as diferentes esquerdas não se podiam reunir. Acentuou, com a contundência e elegância que lhe são habituais, que a sua lealdade era para com todos os milhares de portugueses desempregados ou no trabalho precário ou que tinham sido obrigados a emigrar. Salientou que a direita considera a pobreza uma fatalidade enquanto a esquerda é esperança e acha possível mudar as coisas e a vida. Frisou que o grande problema é “o défice social”, sendo este agora “o grande défice dos portugueses”. Destacou, ainda, que para encontrar novas soluções “é chegado o tempo de somar esquerda à esquerda” e não de “subtrair esquerda à esquerda”.

As salvas de palma soaram muitas vezes durante a noite, o público cantou e vibrou, havia entusiasmo, alegria e esperança no ar. Era como se as pessoas dissessem: “Mesmo na noite mais triste/em tempo de servidão/há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não”. No final das intervenções os oradores foram ao Espaço Chiado, onde a emoção era idêntica. Lá Manuel Alegre lembrou que os discursos já tinham sido feitos, mas soltou uma frase “no futuro encheremos outras salas”. Mais tarde desvalorizaria as suas próprias palavras, mas já tinham sido proferidas.

E agora? Que fazer com tanto descontentamento presente, com tanta ilusão e esperança no futuro! Alguém tem que ser capaz de pegar nestes sentimentos, afectos, desejos e transformá-los em realidade. Ninguém melhor do que aquele que é político, mas também é poeta, ninguém melhor do que aquele “que desarruma um pouco as coisas sossegadas” será capaz de protagonizar este fórum de vontades.


Nº 001 . JULHO 2008


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"Abril e Maio, Agora Aqui”

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