Apesar de mostrarem vassalagem atenta, veneradora e obrigada, a generalidade dos portugueses é rápida e nada discreta a “mudar de senhor”, quando aquele a quem serviam é substituído, mesmo que pelo seu pior adversário. Fará parte dessa mutabilidade, a que chamamos “desenrasca”, o que nos tem aguentado como povo, mesmo em circunstâncias que outros não têm superado. Pelo menos gostamos de nos consolar nessa ficção.
Sempre que não há um fundamento ideológico, uma qualquer “crença” numa qualquer utopia, e tratando-se apenas de servir este ou aquele poderoso, os portugueses (e, claro, muitos outros) são useiros e vezeiros em se passar para o inimigo da véspera, com perfeito à-vontade. Só quando há um substrato de idealismo – quando alguns, pelo menos, lutam por ideais que crêem serem mais importantes do que os seus interesses pessoais imediatos – é que não ocorrerá tanto esta desafectação a valores e deveres, lisonjas e vassalagens a antigos senhores. Foi assim no liberalismo inicial, por exemplo. Mas quase nunca mais. O pragmatismo, as dificuldades e facilidades do dia-a-dia tratam de amolecer esses espíritos mais rigorosos na sua fidelidade.
O vira-casaquismo tem sido uma regra na política nacional, sem especial crítica da opinião pública. Foi-o entre os partidos da rotatividade, quando do início da República, no salazarismo e, finalmente, com o 25 de Abril. Mesmo na actualidade todos conhecemos gente que está sempre no topo, suficientemente bem com todos os poderes, disponível para cargos conforme o que lhe mandam fazer, mesmo que se tenha manifestado veementemente contra, no ano anterior, sob outro líder. Hoje os caricaturistas políticos não têm pegado muito nesse tema, mas durante os últimos tempos da monarquia e nos primeiros da República tal era comum – e de forma personalizada – por exemplo, relativamente aos “adesivos”, ex-monárquicos veementes, alguns no passado com cargos governamentais e até ex-primeiros-ministros, que “se viraram” subitamente para o serviço da República, com funções semelhantes às que detinham com o Rei. Um tal Marco António, no seu livro Republicanadas, de 1913, já fala deles:
“Tal foi dos adesivos o papel
Depois de haverem estado repimpados
Na lauta mesa do seu rei Manuel.
Ao verem os seus cálculos falhados
Acorreram velozes em tropel
À mesa da República, esfaimados,
Não lhes fosse minguar a gorda pança
Com uns dias de jejum e temperança.”
A imprensa monárquica, logo que lhe foi possível manifestar-se, não os poupou. O Thalassa, por exemplo, em todos os números apresentava a rubrica a “Grande Alfayateria Nacional dos Vira Casacas”, sob a pena de Jorge Colaço, onde caricaturava os principais vultos da Monarquia que se iam convertendo em republicanos insignes. Foram referidos, entre outros, Ferreira do Amaral, Teixeira de Sousa, ambos primeiros-ministros dos últimos governos do regime anterior, José de Alpoim, conspícuo dissidente progressista, meias-tintas e meias-águas típico, Cassiano Neves, Júlio Dantas, Cerveira de Albuquerque, Abel Botelho, Pedro Martins, Pereira d’Eça e até o autor da letra do hino nacional, de facto um poema anti-britânico feito nos calores da raiva contra o “ultimatum”, Henrique Lopes de Mendonça (figura 1, O Thalassa de 20 de Junho de 1913). Aqui, aparece, como os outros, vestindo uma casaca virada (mangas do avesso), enquanto o texto anuncia “speech’s já feitos, que podem servir para convencer monárquicos e republicanos. Neste género de prosa há obra feita e para quem gostar de verso, também há na casa quem tenha aptidões como se vê pela amostra que juntamos”. E publicam um poema do visado, dos tempos da monarquia, de superlativa “graxa” à Rainha Dª Amélia.

A “adesivagem” nos primeiros tempos foi tão escandalosa que deu azo, mesmo em jornais não humorísticos, a diversas “charges”, como a do Correio da Manhã, de 10 de Novembro de 1910, com o título “Receitas de Cozinha”:
“Tenha-se ao lume 250 gramas de banha Alpoim [que era muito gordo] e, enquanto ela ferve, pique-se muito bem picado meio quilo de Teixeira de Sousa [o último 1º ministro monárquico, amigo pessoal de Afonso Costa] e junte-se um bom naco de Padre Matos [um orador ultra-reaccionário na Monarquia, que“se virou” subitamente republicano e “revirou” monárquico mais tarde]. Mexa-se de forma a que tudo fique bem misturado e deite-se na banha a ferver, pondo-se de novo ao lume, deixando ferver até que tudo forme uma pasta muito espessa. Tire-se então do lume, ponha-se a esfriar, e quando estiver frio sirva-se, bem polvilhado de Lopes de Mendonça, numa travessa ligeiramente untada de Afonso Vargas. Este prato serve-se à sobremesa, logo depois do assado, com a designação bem conhecida de Bolo Podre”.
Com o 28 de Maio o fenómeno da “adesivagem” continuou. Notáveis situacionistas de então chegaram a ter um passado que ia de incondicionais monárquicos, anarquistas, socialistas, republicanos democráticos, unionistas, sidonistas, fascistas e, finalmente, salazaristas. Um pouco ao sabor das modas internacionais e das conveniências nacionais. Ou, no caso de alguns radicais dados a “fés” fundamentalistas, fruto de viragens de 180º provocadas por ”revelações”, dirigidas mais à emoção do que à razão. Carlos Rates, um dos primeiros dirigentes do PCP e ateu empedernido, não aderiu, depois, ao fascismo e ao catolicismo? E o já falado Padre Matos, que vociferava contra o ateísmo, não descobriu subitamente a sua veia republicana?
O fenómeno repetiu-se, como já dito, com o 25 de Abril. Na figura 2, do excelente João Abel Manta, cujos 80 anos de idade se estão a comemorar, um alfaiate a trabalhar perante uma parede cheia de casacas à espera de serem viradas, diz para um cliente de óculos escuros que lhe apresenta mais uma: “Não me chateie! Já lhe disse que só lhe posso virar a casaca lá para Setembro”.

Mesmo agora, com a democracia mais consolidada, a fidelidade ao líder político não é constante, bastando o poder mudar de mãos para que do ataque se passe à lisonja e à submissão acrítica, na mira de um cargozito no Estado ou duma qualquer prebenda. Não é necessário, em geral, saber-se do sector ou deter-se especial competência profissional. A subserviência tem sido, quase sempre, suficiente. O mérito profissional e o currículo pessoal não têm qualquer importância. Ao fim e ao cabo, há que manter as tradições…
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