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Nº 002 . nov08 > dossiê
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Duas perguntas
a professores da escola pública |
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Quem passa o dia na Escola apercebe-se que esta deixou de ser um local aprazível para passar a ser um palco de fricções e de fracções entre professores. A mudança de paradigma educativo, seja a nível da gestão das escolas, seja a nível da avaliação dos professores, foi unilateralmente imposta pela tutela, sem a preocupação de envolver, formar e conquistar os docentes para um processo que se sentia como necessário. Hoje, a desmotivação
é grande e quisemos mostrá-lo através de duas questões colocadas a diferentes colegas de Coimbra, certos que essa desmotivação é transversal e se estende a todo o País.
Foram as seguintes as perguntas formuladas aos nossos colegas:
1. A escola pública atravessa um momento difícil para os professores reflectido numa depressão colectiva e num mal estar geral. Indique três razões que estejam na origem desse mal estar.
2. Um dos objectivos da avaliação de desempenho dos professores é a melhoria da qualidade de ensino. O modelo de avaliação de desempenho, previsto no Decreto Lei 2/2008, poderá cumprir esse objectivo?
Micaela Montezuma de Carvalho
Professora contratada da Escola Básica 2,3 de São Silvestre, Coimbra
1. Razões do mal estar:
É incontestável que a reforma operada na escola pública gerou uma situação de crise na comunidade escolar, em especial na comunidade de professores, com forçosas repercussões sobre os alunos e, obviamente, novas preocupações para os seus encarregados. Desde logo, porque muitas das decisões foram ditadas por preconceitos políticos e assentam num conhecimento pouco sólido da realidade educativa. Os professores vêm o seu trabalho desvalorizado e o seu papel social diminuído. Dispersam-se em burocracias, remetendo para segundo plano a efectiva aquisição de conhecimentos e competências pelos alunos e desvalorizando o que de mais importante existe na nobre tarefa de ensinar.
2. Sobre o modelo de avaliação:
A necessidade de implementar um regime de avaliação que verdadeiramente reconheça e distinga a aptidão, o valor intelectual e moral do docente, que proporcione condições para o desenvolvimento profissional, e que promova e assegure a melhoria da qualidade do ensino, é comummente aceite por todos.
Mas a sofisticação dos modelos de avaliação não significa que
estes tenham que ser complexos e intricados. No caso do modelo
instituído pelo Decreto Regulamentar 2/2008, eu diria que o modelo, para além de complexo, é tortuoso, e que apenas parece servir para cotar lucros políticos, deixando de fora o efectivo impacto da actividade docente que deveria ser o âmago da avaliação.
J. Vieira Lourenço
Professor da Escola Secundária Quinta das Flores, Coimbra
1. Três razões para o mal estar:
a) O concurso de Professores Titulares que foi uma monstruosidade jurídica e um insulto aos profissionais docentes que durante largos anos deram o seu melhor em defesa dum ensino de qualidade, trabalhando quantas vezes em condições impróprias, na esperança, contudo, de levarem a bom porto o barco do seu entusiasmo e do seu empenho. (...) As regras do jogo, mal definidas, deixaram de fora alguns dos melhores e premiaram outros que tiveram a sorte de estar no lugar certo à hora certa. Avaliar alguém, com 30 e mais anos de carreira, contando os últimos 7 anos não lembraria a Belzebu! (...)
b) A implementação apressada da Avaliação de Desempenho dos Docentes. Nenhum profissional de bom senso pode discutir a necessidade de avaliação da sua carreira. Mas tem o direito de ser avaliado a partir dum quadro de regras claras e bem definidas, atribuindo essa responsabilidade aqueles que estão preparados para isso. (...) implementar um processo deste tipo, generalizando-o, sem qualquer experimentação, é contra todas as regras do mais elementar bom senso (...)
c) A desmotivação geral que muitos docentes sentem tem a ver ainda com o facto de se sentirem mergulhados num mar revoltoso e burocrático que lhes consome a maior parte do tempo, mas que não lhes permite fazer o que mais gostam: dar aulas e organizar com rigor o seu trabalho. Acresce que tais docentes não se sentem hoje representados por ninguém. Por isso avançam cada vez mais os movimentos de professores e os sindicatos vão a reboque. (...) Mas os docentes, em grande parte, já perceberam que com estes sindicatos e sindicalistas de gabinete, que assinam acordos como o célebre acordo assinado no ano lectivo anterior, não ganham nada.
No momento presente, são cada vez mais os docentes a pedirem a aposentação. Sentem-se humilhados e estão fartos duma profissão que agora lhes exige horas e horas de intermináveis burocracias, roubando-lhes aquilo de que mais gostam: o prazer de ensinar!
2. Sobre o modelo de avaliação:
Do ponto de vista teórico pode facilmente aceitar-se que um dos objectivos da avaliação de desempenho dos professores seja a melhoria da qualidade de ensino. Isso parece ser óbvio relativamente a qualquer profissão. Avaliamos um processo para o melhorar. Só que o modelo de avaliação de desempenho nunca poderá cumprir esse objectivo porque ninguém de bom senso pode acreditar que ele tenha sido criado exclusivamente para esse efeito. Em última instância o modelo criado procura alcançar objectivos meramente economicistas.
Com efeito, venderam ao povo uma ideia simples: porque queremos uma escola com mais qualidade e mais rigor temos de avaliar os docentes de forma mais rigorosa. Mas uma análise atenta da realidade de qualquer escola desmonta estes argumentos facilmente. O processo foi imposto, não foi experimentado, não formou devidamente os avaliadores. E neste momento não consegue ultrapassar situações caricatas! Grupos que não têm professores titulares a serem avaliados por docentes de outros grupos; docentes com habilitações inferiores a avaliarem docentes com habilitações superiores, entre muitos outros, para não falar das intricadas questões jurídicas que se prendem com as delegações de competências ou das caricatas fichas de avaliação multicolor! E sobre estas seja ainda permitido uma outra palavra: o que era fácil de fazer….o iluminado legislador ministerial fez! O que era difícil (impossível em alguns casos) foi atribuído às escolas em nome da sua autonomia. E o que temos está à vista: um clima de trabalho impossível e o caos instalado na maior parte das escolas (...).
Maria Eduarda Carvalho
Presidente do Conselho Executivo da Escola Daniel de Matos, Poiares
1. Três razões para o mal estar:
Em primeiro lugar, este modelo de avaliação é injusto, começando pelo modo como foi feito o “concurso” para “professor titular”. São estes os docentes “avaliadores”, sem formação adequada, que vão avaliar os seus pares. Os professores foram formados para trabalhar com alunos, para dar aulas, e não para avaliar colegas (que, por vezes não pertencem ao mesmo grupo de recrutamento), o que torna todo este processo pouco ou, mesmo, nada rigoroso. Em segundo lugar, a falta de dignidade com que os professores têm vindo a ser tratados, provoca um forte desgaste, quer a nível físico, quer a nível psicológico, prejudicando-se, assim, todo o trabalho que deveria ser realizado em prol do sucesso educativo dos alunos. Finalmente, o modelo de avaliação “imposto”, não promove o trabalho colaborativo/cooperativo entre os docentes. O bom ambiente existente, anteriormente, foi quebrado por todo este processo.
2. Sobre o modelo de avaliação:
Não. É um processo demasiado complexo, impossível de aplicar com rigor, é burocrático e redutor da motivação indispensável para desenvolver uma prática lectiva de excelência.
Alice Carvalho
Professora de matemática da Escola Secundária Quinta das Flores, Coimbra.
1. Três razões para o mal estar:
a) A tentativa, já pouco camuflada, de denegrir o ensino público para que lenta e pacificamente, se vá instalando na consciência colectiva a ideia de que é do
privado que sai a qualidade e a excelência, abrindo assim o caminho à privatização do
ensino em Portugal.
b) A desvalorização dos saberes que tem sido testada nos exames nacionais dos dois últimos anos. Não interessa ao
ministério que o professor seja exigente e realmente prepare os seus alunos; antes sim que estes obtenham, a qualquer custo, resultados francamente acima dos seus saberes. E, pasme-se, até já criou mecanismos para penalizar o bom professor.
c) A confusão legislativa de quem quer à força, mostrar produto de trabalho, mas que de educação percebe muito pouco. É ver legislação a revogar legislação por eles próprios criada.
2. Sobre o modelo de avaliação:
Não (...). Pois se o Professor, que ao longo de toda a sua carreira nunca deixou de ser avaliado (haverá outra profissão em que se esteja tão sistematicamente, hora a hora, exposto?), começando pelo estágio profissional e, todos os anos, pelos seus alunos e respectivos
encarregados de educação, tem agora que despender um tempo interminável em reuniões, em planificações e em imensas outras burocracias tais como declarações de intenções que o podem vir a crucificar. Que tempo lhe vai restar para fazer o que realmente devia? Para preparar cientificamente, dando o melhor que de si próprio exige, os seus alunos para a vida académica ou activa!
Mª Cristina Pratas e Sousa
Profesora de inglês na Escola Secundária de Avelar Brotero, Coimbra
1. As razões do mal estar:
A primeira razão do mal deve-se à atitude de um Ministério da Educação (...) que introduziu reformas sem ouvir os professores ou, pelo menos, sem se apoiar numa equipa verdadeiramente esclarecida, que conhecesse os problemas do sistema (...) e que fosse capaz de apresentar um projecto coerente e eficiente, que transformasse a educação em Portugal num espaço em que a juventude do nosso país pudesse sentir-se feliz e se preparasse devidamente para a sua vida futura (...)
A segunda e terceira razões são menos gerais e decorrem da primeira. Em primeiro lugar, muito se tem falado nas alterações que a
escola ia ou estava a sofrer, levantando-se suspeitas ou acusações directas relativamente à falta de profissionalismo dos professores e ao ambiente de desleixo que se vivia na escola pública. A tantas vezes injusta deterioração da nossa imagem foi péssima para a opinião pública em geral, porque aceitou acriticamente a verdade desta acusação e deixou muitas vezes de respeitar a autoridade do professor (...). Foi também péssima para os bons profissionais, que se sentiram revoltados porque injustiçados; para os professores até aí menos empenhados, que sentiram raiva pela perda de regalias e nada estimulados para a mudança.
Em terceiro lugar, a introdução de medidas, que mais parecem remendos, em que as aulas de substituição são o exemplo mais gritante, sem serem devidamente ponderadas, sem se garantirem os meios para a sua eficácia: trouxeram perturbações pontuais para a
escola, não melhorando em nada o processo de aprendizagem ou a qualidade de ensino. Outros remendos incluem as aulas de noventa minutos para alunos que não têm hábitos de trabalho nem capacidade de concentração; os programas ambiciosos, cheios de preciosismos pouco rendíveis (vejam-se os pretensisosos termos da TLEBS,
Terminologia Linguística para a Educação Básica e Secundária, no programa de Português), testados depois em exames infantilizantes, que nivelam os bons e os alunos medíocres, o que é completamente desmotivador e injusto para os primeiros; a distribuição das disciplinas pelos anos de escolaridade, que sobrecarregam o 11º ano e tornam o 12º ano rarefeito, com a agravante de afastar do ano terminal matérias importantes para a formação universitária (...)
2. Sobre o modelo de avaliação:
(...) às vezes apetece desistir, mas quem ama a sua profissão não o consegue fazer, não por receio de uma avaliação sem nexo e mais uma vez baseada em grelhas e mais grelhas, em estatísticas e números, que vão dizer que A é Excelente e B é Bom. Como se consegue quantificar isso? Até podem ser ambos excelentes ou muito bons, mas só um o pode ser pois não há lugar para os dois! (...)
Durante cerca de 15 anos coordenei projectos europeus, levei os meus alunos e a minha escola a lugares tão pouco conhecidos pelos nossos alunos com a Roménia, a Bulgária, a Letónia. Tive assistentes de Língua de vários países europeus a trabalhar comigo nas escolas, fiz as minhas acções de formação sempre no estrangeiro e em cursos específicos da minha área e nunca vi esse trabalho reconhecido, nem quando houve um famoso concurso de professores titulares e nada disso entrou na pontuação para ser considerada titular. (apesar dos meus 123 pontos não fiquei como titular, porque por acaso na minha escola só havia 2 vagas e nas outras onde havia mais até entraram pessoas com 95!)
O modelo de avaliação de desempenho, não vai melhorar a qualidade do nosso ensino, talvez nos vá tornar peritos em fazer mais umas grelhas e umas "lindas aulas com power point" no dia que o avaliador lá vai e se tivermos um lindo sorriso, melhor... Estou a ironizar, mas não é assim certamente que o ensino vai melhorar. Se tivermos melhores condições de trabalho, horas para nos dedicarmos à preparação das nossas aulas e um bom ambiente de trabalho, então sim, voltaremos a ir para a escola felizes e com vontade de fazer cada vez melhor! E os nossos alunos com certeza que agradecerão. (...)
Maria Manuela Carvalho
Professora de matemática nas Escola Secundária Infanta D. Maria, Coimbra
1. Três razões para o mal estar:
Os professores não aguentam a quantidade de burocracia que lhes caiu em cima. Os professores não aguentam o mau ambiente profissional criado, acima de tudo, pelos critérios que nortearam o primeiro Concurso de Acesso a Professor Titular. Os professores não entendem, e por isso não aceitam, o modelo de avaliação do desempenho docente proposto.
2. Sobre o modelo de avaliação:
De modo nenhum cumprirá esse objectivo. Penso sim que vai contribuir para o objectivo do governo, melhorar as estatísticas, disfarçando passagens administrativas, e diminuir os custos, reduzindo a necessidade de docentes e limitando a progressão na carreira. Não interessa que os alunos saibam, só interessa que tenham sucesso, e creio que com este modelo de avaliação esse objectivo tem condições para ser concretizado.
Como pode haver ensino de qualidade e sucesso escolar se os professores investem a maior parte do seu tempo (que ultrapassa largamente as 35 horas semanais) na elaboração e preenchimento de um emaranhado de documentos burocráticos nos quais se baseia este Modelo de Avaliação?
Neste modelo a verdadeira competência profissional pode ser preterida, dando lugar aos incompetentes ou aos bem relacionados. O professor que acima de tudo sente a sala de aula como seu habitat natural, que se relaciona com os alunos como um verdadeiro líder, que os motiva, que lhes explica tudo, mas que não dá notas a quem não as merece e que não tem jeito para preencher papéis, para fazer “bonitos” para o avaliador ver, esse excelente professor nunca terá essa classificação. Vai sentir uma enorme infelicidade pelos documentos inúteis que terá que apresentar, vai recusar-se a dar classificações positivas a alunos que não a merecem e a gastar o seu tempo a tentar fazer todos os planos que o avaliador vai querer ver. Deste modo os alunos vão sair a perder, a sala de aula vai deixar de ser o local onde este professor se sente realizado para ver nela um tribunal, onde depois de muitos anos a sentir que era um excelente professor pode sentir a frustração de não ter o plano de aula mais certinho e bonitinho que o seu avaliador encontrou e onde vai sentir-se castigado por tentar ser justo nas avaliações a atribuir aos seus alunos (...)
Teresa Cardoso Valente
Professora na Escola Secundária Infanta D. Maria, Coimbra
1. Razões para o mal estar:
Ruptura do anterior paradigma de escola, em simultâneo e a três níveis – avaliação do desempenho docente, gestão da escola e estatuto do aluno. Desvalorização da função pedagógico-didáctica do docente. Incerteza crescente quanto ao futuro profissional, acrescida da desvalorização do percurso profissional anterior. Excessiva burocratização do modelo de avaliação do desempenho docente. Pseudo-autonomia das Escolas.
2. Sobre o modelo de avaliação:
Não. O Professor, em vez de disponibilizar o melhor do seu esforço na preparação das actividades lectivas, utiliza esse tempo na realização das tarefas burocráticas relacionadas com a avaliação do seu desempenho. Não leva a uma melhoria das aprendizagens dos alunos mas, eventualmente, a uma melhoria dos resultados do seu desempenho.
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Nº 002 . NOVEMBRO 2008
DOSSIÊ
Ensino Básico e Secundário
Duas perguntas a professores da escola pública
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