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ISSN 1647-0435
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Nº 002 . nov08 > opinião
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Verba
 
"Estamos constantemente a utilizar termos que têm uma intenção e uma extensão que não são inteiramente aptas. Teoricamente, são em princípio criados para serem aptos, mas, se não o conseguem, então terá de ser encontrada uma outra maneira qualquer de lidarmos com eles, de modo que possamos saber em qualquer momento aquilo que pretendemos significar.”
T.S.Eliot

De quando em quando criam-se rótulos e palavras para designar coisas e conceitos antigos retirando significado às simbologias adquiridas por todos. Neoliberal para capitalista selvagem é uma delas e auto-regulação do mercado para selvajaria capitalista, é outra. Com a mediatização dos agentes políticos, surgiu também a moda da dissimulação das doutrinas com recurso a técnicas agressivas de publicidade e do marketing, num jogo de manipulação, onde as roupagens novas tentam negar o antigo que tapam.

Usam-se termos incríveis de sentido vazio como “sociedade civil” para se designar sociedade dos cidadãos ou “pragmatismo” para justificar o primado da imoralidade política feita negócio. Enquanto se joga com as palavras e se reinventa a cabra-cega, movimentam-se os interesses na emergência de riquezas sem produção de valor, observam-se tomadas de posto em empresas privadas que sugam do Estado as contribuições entregues para o bem comum, permitem-se bloqueios de área pública com usufruto privado e concedem-se favores sob a capa de regulação ou de outros maneirismos para subterfúgio da impunidade.

Na coisa política elegem-se cada vez mais representantes com menor percentagem de votos, desinteressam-se cada vez mais as vítimas dos direitos e dos mecanismos de defesa, afastam-se os desprevenidos das palavras antigas e entregam-se os desprotegidos à falta de referências e à sedução da fantasia consumista, da irrealidade e da escravatura.

Tudo se passa com a complacência de quem tem por obrigação e o dever de ser claro, honesto, justo, solidário e leal. Passa-se no conceito de república democrática com a Rés Publica como ideal perdido, na democracia como residual dos votos e na heteronomia sem qualquer sentido. O comprazer sobrepõe-se à responsabilidade de honrar os compromissos assumidos, as promessas feitas e os processos sufragados. Promulga-se o que se declara não concordar, obedece-se cegamente mesmo em negação de consciência, incapacitam-se os instrumentos de segurança e descredibiliza-se a justiça com a armadilha de não a fazer aplicar.

As palavras amaciam-se no discurso e a cacofonia que produzem anestesiam os incautos até perceberem já ser tarde para agarrar quem as usou em proveito próprio. Depois de tudo insistem que é necessário remediar e é mais uma vez com esses eufemismos que matam o pensamento, inviabilizam o novo e secam o que resta do humanismo em troco de uma mão cheia de dinheiro. Não se pretende o retorno à ética passadista nem ao moralismo balofo. Mais do que palavras, anseia-se pela inteligência que invente civilização e abra caminho a novas soluções de humanidade.


Nº 002 . NOVEMBRO 2008


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