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Nº 003 . MAR09 > DOSSIÊ
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A insustentável leveza
da finança de mercado |
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Embora nem sempre pelas melhores razões, o discurso público sobre a crise anda encharcado em moralidade. Atribuir a crise a recessos escuros da natureza humana – à ganância e irresponsabilidade dos indivíduos – pode ser uma estratégia para passar por ela sem ter de mudar nada do que é importante. O discurso moralista convida a pensar que o mal está nas pessoas, que o que é preciso é castigar os culpados e que nada mais há a fazer. Tanto moralismo também cansa.
Apesar disso, esta crise é realmente, antes de tudo o mais, uma crise moral e vale a pena ter isso em conta quando pensamos acerca do que pode ser feito para sair dela e, sobretudo, para prevenir as outras que nos esperam se efectivamente nada do que é importante for feito.
Para entender a natureza moral da crise podemos partir de uma constatação e de uma pergunta que decorre dela. Existem, desde tempos imemoriais, actividades económicas que são objecto de julgamento e condenação moral. Era o que acontecia com algum comércio na Grécia antiga e o que se passava com a usura, quer na mesma Grécia, quer na nossa Europa, até há bem pouco tempo. Hoje o comércio é naturalmente aceite e o mesmo se passa com a usura, agora baptizada de crédito. Mas a especulação, normalmente acompanhada do qualificativo desenfreada, apesar de absolvida nos manuais de economia onde é designada por arbitragem, continua sob suspeita. Por que razão a especulação é encarada pela maior parte das pessoas como uma actividade que, do ponto de vista moral, é (pelo menos) dúbia? Será isso um preconceito, um atavismo? Ou, pelo contrário, é um julgamento fundado em boas razões?
Especular é comprar barato seja o que for (bens, títulos), não para os usar, ou obter um rendimento, mas para os vender mais caros no futuro. Aparentemente não há mal nisso, embora, como diziam os escolásticos medievais, comprar barato, nomeadamente bens alimentares, quando eles são abundantes para os açambarcar e depois vender muito caro a quem deles necessita desesperadamente, continue a ser, sem dúvida (diria eu), moralmente dúbio.
Mas o problema (moral) da especulação financeira não é apenas, nem sobretudo, este. Houve um tempo, explica-nos por exemplo Keynes na sua Teoria Geral, em que a propriedade e o controlo das empresas coincidiam no mesmo indivíduo e os empresários estavam ligados, para o melhor e para o pior, aos seus empreendimentos (e possivelmente também aos que nele o acompanhavam). Mas, com a invenção das sociedades anónimas e dos mercados bolsistas esta situação modificou-se completamente.
Na sociedade anónima a empresa é cortada em fatias e cada fatia pode ser comprada e vendida, sem envolver necessariamente o todo. Além disso, os mercados reavaliam-na ao minuto e dão aos agora accionistas-proprietários-de-fatias oportunidade para se desfazerem das suas partes, quando e se assim o entenderem. A descrição que Keynes faz desta situação é colorida: é como se um agricultor consultasse o barómetro de manhã para antecipar uma vaga de calor e decidisse vender a sua exploração, para a voltar a comprar da parte da tarde se o barómetro mudasse de posição.
As sociedades por acções parecem ser uma fantástica invenção institucional. Garantem a rendibilidade que os tesouros não prometem e têm a vantagem dos tesouros: estar à mão de semear para qualquer eventualidade. As acções e outros títulos são activos (mais ou menos) líquidos, isto é, que podem ser revertidos em dinheiro ‘vivo’ sem grande custo para quem os detém.
No entanto, é precisamente por ser um produto derivado da liquidez que a especulação é efectivamente moralmente dúbia. Numa relação líquida (revertível a baixo custo), como aquela que os accionistas podem ter com as empresas, não há lugar para compromissos, obrigações mútuas ou laços duradouros. Numa relação que pode ser revertida a qualquer momento, quase sem custo, por uma das partes, não há lugar sequer para a noção de compromisso, ou obrigação. Os compromissos e obrigações mútuas forjam-se em relações continuadas, com projecção no futuro. Entre a empresa e os accionistas líquidos, não existem, em geral, como é sabido, laços duradouros nem promessas firmes. Os capitais voam leves de empresa em empresa, de continente em continente, sem conhecer dos poisos temporários mais do que uns poucos indicadores de rentabilidade.
Apesar disso, a economia continua a ser composta, como sempre foi, por unidades de produção que não são entidades abstractas mas antes grupos de pessoas com raízes no espaço geográfico que, para produzir, devem não só agir colectivamente, como relacionar-se com o exterior (clientes, fornecedores, credores, população local, estado central e local). A acção colectiva no interior da empresa, e as relações com exterior, não podem ser e não são nunca, meramente contratuais. Os próprios contratos dependem, como se sabe, de alguma coisa não contratual a que habitualmente chamamos confiança.
Temos assim na empresa um todo bastante desigual quanto à natureza das relações nela envolvidas. De um lado (entre trabalhadores, empresa e trabalhadores, empresa e clientes, fornecedores, credores, poderes públicos), compromisso, obrigações mútuas e confiança quanto baste para que a relação exista – fala-se mesmo às vezes de fidelidade – do outro (empresa e accionistas), liquidez, leveza, leviandade. Descrever esse todo com um “estamos todos no mesmo barco”, como várias vezes já ouvi, só pode ser uma ironia de mau gosto. Na sua leveza o capital está sempre pronto a abandonar o barco, não necessariamente apenas quando o barco está a ir ao fundo, mas quando há outros barcos que parecem navegar mais depressa. Os que têm raízes no espaço geográfico, aqueles para quem as pertenças, as relações e os afectos são importantes, isto é, os seres humanos comuns, não podem, por muito que isso lhes seja recomendado, imitar o capital na sua leveza.
Apesar disso, a liquidez que caracteriza as relações entre o capital e a empresa tende a transformar-se em modelo para todas as relações no interior da empresa e entre a empresa e o exterior.
Flexibilidade é o nome da liquidez quando transposta para as relações entre trabalhadores e empresa, mobilidade, o que é aplicado às carreiras dos gestores. À luz do modelo da liquidez, trabalhadores e gestores poderiam e deveriam pairar sobre as empresas com a mesma leveza do capital. Na realidade as coisas não se passam assim. Nem todos os trabalhadores podem trocar de empresa como quem troca de camisa, nem a empresa deseja que muitos deles o possam fazer. A empresa procura a unidade dos contrários, conciliar flexibilidade e fidelidade, ter o poder de descartar sem deixar fugir para a concorrência trabalhadores em cuja formação investiu ou que investiram eles próprios numa formação que a empresa deseja. Algo semelhante se passa com os gestores de carreira móvel. É preciso flexibilizá-los e fidelizá-los ao mesmo tempo. A diferença está em que o poder destes gestores na negociação com accionistas é incomparavelmente maior do que o dos trabalhadores. Eles são de facto mais móveis do que os trabalhadores. A tentativa de comprar a sua fidelidade resultou portanto em oportunidade para que extraíssem das empresas as rendas exorbitantes que são bem conhecidas.
As empresas, locais de acção colectiva que não podem subsistir sem os compromissos e as obrigações mútuas que só as interacções sem prazo podem nutrir, tendem neste processo a transformar-se em locais onde os compromissos e as obrigações mútuas se tornam implausíveis. O mesmo tende a ocorrer quanto às relações entre elas e com o exterior. Aí está a crise moral de que me parece importante falar. Uma crise moral afinal mais não é do que uma situação em que os compromissos e as obrigações mútuas que constituem o cimento da sociedade deixam de ter significado. Uma situação em que para sobreviver ou prosperar muitos são levados a comportar-se como se fossem puramente oportunistas, imitando o capital na sua leveza e leviandade. Dos dilemas morais de todos eles, do seu carácter, de quem poderiam ser noutras circunstâncias, nada sabemos.
Não se trata apenas de procurar culpados e puni-los. A origem da crise moral, ou a origem moral da crise (não sei bem), está na liquidez. Não seremos nós a tornar-nos leves e desenraizados como o dinheiro, transformando-nos em deuses ou monstros. É a leveza do capital, não as nossas raízes e afectos, o que é (socialmente) insustentável. É por isso que para reverter o processo me parece preferível e absolutamente necessário pôr atrito nas auto-estradas em que o capital circula ou travões nos veículos que utiliza.
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Nº 003 . MARÇO 2009
DOSSIÊ
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