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ISSN 1647-0435
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Nº 003 . MAR09 > DOSSIÊ
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Pobreza e paradoxos
 
Como é conhecido, Portugal apresenta, desde há décadas, uma das taxas de pobreza mais elevadas da Europa. Durante muito tempo, uma das especificidades do País a este nível foi a de conciliar essa posição com taxas de desemprego mais baixas do que a média do contexto europeu. Para um tal panorama contribuía o facto de a pobreza atingir, em particular, as pessoas idosas e de, entre os pobres, sobressair a presença dos chamados working poor, isto é, pessoas que, apesar da sua participação no mercado de trabalho, apresentam níveis de rendimento inferiores ao definido como sendo o limiar de pobreza. Os working poor são fruto de uma crescente desvalorização do trabalho (mesmo em termos económicos) e de uma precarização das condições do seu exercício, quer em termos de vínculo, quer em termos remuneratórios. Os working poor são, ainda, o reflexo da presença de uma economia informal que, empobrecedora de alguns, se afigurou sempre como um elemento de estancamento do desemprego registado para além de certamente ter contribuído para o crescimento dos sinais visíveis de riqueza por parte de outros.

A crise, porém, na sua vertente de compressão do (direito ao) emprego, que a Estratégia de Lisboa anunciava com promessas de plenitude, como factor de coesão social, vem atirar para a pobreza novos sectores da população e limitar as expectativas de futuro dos mais jovens.

Mas que a crise não silencie, ainda mais, as vozes fracas de uma velha pobreza onde se incluem, sobretudo mulheres, mas também homens, velhas e velhos que podem tender para uma pioria da sua situação quando se tornam suportes de outros elementos da família que, não coabitando, e por isso não contando nas estatísticas sobre rendimentos e despesas como elementos do agregado familiar, tornam invisível o esforço de partilha dos parcos recursos existentes para minimizar os impactos necessariamente negativos do desemprego dos membros mais jovens.

Embora possamos criticar a apetência da comunicação social (ou pelo menos de uma certa comunicação social) para o empolamento de notícias de crimes e de conflitos que envolvem populações marginalizadas, importa não ignorar os sinais que dão conta das ameaças crescentes a uma coesão social há muito fragilizada pelo crescimento das desigualdades sociais no nosso País. Esses sinais tornam urgentes uma maior aproximação entre as diferenças: económicas – no sentido de um combate efectivo às desigualdades na distribuição da riqueza; sociais e culturais – na perspectiva da promoção de uma cultura de diálogo e de implementação de uma estratégia de prevenção nos vários domínios que podemos designar como “social”.

Paradigma deste “mau estar social”, onde a crise intervém agudizando preconceitos, estereótipos e discriminações é a relação entre as pessoas e comunidades ciganas e a sociedade maioritária. A situação destas comunidades assume o carácter de uma exclusão secular que se agudiza, certamente, em momentos que são não só de compressão do emprego por conta de outrem mas também de uma quase destruição daquilo que eram antes as ofertas criadas pelas actividades económicas tradicionais de ocupação da mão-de-obra de pessoas ciganas (a agricultura sazonal; a venda ambulante; as feiras e mercados). “Que conheçam cada cigano, porque nem todos são iguais” é uma frase sábia proferida por gente sábia dentro das comunidades ciganas que apela ao diálogo e que remete para a necessidade de um maior conhecimento mútuo e para uma não generalização de ideias e de atitudes com base na pertença étnica, seja ela qual for.

A crise tem, porém, as suas potencialidades! Ela torna claros os paradoxos de uma sociedade que aceita apoiar financeiramente entidades bancárias que gestões danosas levaram à falência mas continua a condenar medidas sociais activas como é o caso do Rendimento Social de Inserção e a clamar punição para os pobres “não merecedores” por não saberem gerir os recursos que lhe são (generosamente) atribuídos e que, apesar de tudo, continuam a situar-se tecnicamente abaixo da linha de pobreza. É, de facto, uma crise que conduz a interrogações diversas incluindo sobre a nossa forma de ver e de nos relacionarmos com os outros, porque cada um e cada uma de nós é parte activa no princípio da constituição de que “Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social”.


Nº 003 . MARÇO 2009


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