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Nº 003 . MAR09 > DOSSIÊ
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PMEs – como dar esperança
a esta gente? |
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O pequeno empresário é demasiado dependente dos bancos com quem trabalha, demasiado fraco face às entidades públicas que gerem apoios, demasiado próximo dos seus pares no negócio para poder falar à vontade sobre a actual crise. A esta escala, um testemunho aberto, na primeira pessoa, é forçosamente incómodo.
Visitei uma pequena empresa de calçado, localizada a alguns quilómetros do Porto. Emprega mais de cinquenta pessoas, grande maioria mulheres, numa produção em linha que impõe gestos cadenciados, os mesmos todos os dias. Não há engenheiros, designers ou técnicos de marketing. Com a habilidade dos que sobem a pulso e arriscam, o empresário vai às feiras, observa tendências, adapta modelos, angaria encomendas, gere a fábrica e exporta. Quase tudo para a Europa. À primeira vista, a crise ainda não bateu à porta desta pequena empresa. Mas, seguramente, o esmagamento das margens tem limites.
A Mocap, feira internacional do calçado português, já não existe. A cultura dos seus empresários não foi capaz de gerar a capacidade de cooperação e marketing dos italianos. Aliás, a produção foi incentivada a deslocalizar-se para países de baixos salários sob pretexto de uma indispensável internacionalização do sector. As dificuldades da Aerosoles, empresa emblemática com participação maioritária do capital de risco público, sugerem que a deslocalização não faz milagres. De resto, o empresário põe o dedo na ferida: as políticas de apoio à inovação e à internacionalização têm sido formatadas para cerca de 10% das empresas, das quais algumas são estabelecimentos de multinacionais. Este núcleo lidera a associação do sector e mantém relações privilegiadas com o poder político do momento. A discreta cumplicidade com o poder é fundamental porque permite o acesso em primeira mão aos programas de apoio. Quando estes entram em vigor as candidaturas dessas empresas já estão preparadas e, com projectos volumosos, cativam à partida a maior fatia do orçamento disponível.
Não é de estranhar que, após três quadros comunitários de apoio, a maioria das empresas do calçado tenha grandes dificuldades em competir no mercado global. É que os apoios financeiros, por si mesmos, não geram novas formas de organização e processos de aprendizagem colectiva, elementos indispensáveis à sobrevivência de um tecido de PME.
Uma grave e prolongada recessão à escala global, em vias de derrapar para uma grande depressão, é sem dúvida a maior ameaça para esta empresa. A sua sobrevivência vai depender da capacidade do empresário em fidelizar pequenos nichos de mercado nos países menos expostos à crise. Será possível para esta pequena empresa? E para as centenas de outras do sector?
Há também uma outra frente onde a empresa joga a sobrevivência. Num negócio marcado pela sazonalidade, os ciclos de produção (pagamentos) e de venda (recebimentos) são por vezes muito desfasados e exigem um importante fundo de maneio que as pequenas empresas têm dificuldade em gerar. Por isso, negociam com os bancos o montante de que precisam e o ‘spread’ da taxa de juro. Contra a apresentação de comprovativos e facturas de exportação, os bancos adiantam dinheiro, o que permite comprar matéria-prima e pagar salários. Acontece que, em tempo de crise, também o crédito já não é o que era.
Após uma relação de várias décadas com um grande banco privado, o empresário foi inesperadamente confrontado com a imposição de uma elevada comissão sobre o crédito que habitualmente obtinha. E a taxa de juro era agora mais alta apesar da queda da ‘euribor’. A explicação é conhecida: com a crise financeira, o custo do dinheiro está mais alto e o risco do crédito é maior. Mas o empresário não demorou muito a perceber que o banco agora está a conceder um volume global de crédito muito inferior ao normal. Em consequência, o seu gestor de conta dispõe de um ‘plafond’ mais reduzido e está obrigado a fazer um rateio pelos clientes. Não há nada a negociar. De nada serve o seguro de exportação que o empresário apresenta porque o problema está sobretudo nos rácios de solvabilidade do banco. Algo de semelhante acontece com o seguro à exportação cujos ‘plafonds’ são cada vez menores.
Mas o empresário também é cliente da Caixa Geral de Depósitos. No banco público obteve o financiamento que lhe faltou no privado e as operações têm sido apoiadas através das linhas de crédito bonificado que o Estado negociou com a banca. Os apoios do ‘PME Investe’ permitem-lhe beneficiar de uma redução no ‘spread’ da taxa de juro. Falta saber até quando, sobretudo tendo em conta que a crise está a colocar sob pressão a dívida do Estado ao mesmo tempo que as emergências financeiras aparecem de todos os lados. Recorde-se que, no sector do calçado, grande número de empresas não pode aceder às bonificações do crédito, nomeadamente porque já têm dívidas ao Estado e à Segurança Social. E, face aos critérios de avaliação previstos, a larga maioria das que se candidatam vê rejeitado o seu pedido.
No final da conversa, ainda faltava uma pergunta: como vai ficar o sector se a crise durar mais de dois anos? Falar do futuro não é fácil, mas o empresário arriscou: 50% das empresas acabará por encerrar. Fazendo contas por alto, num pequeno território do Norte do país isso pode representar mais 25 000 desempregado(a)s com baixo nível de escolarização e sem alternativas à vista. De regresso a casa, uma outra pergunta não me largava: como dar esperança a esta gente?
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Nº 003 . MARÇO 2009
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