A sustentabilidade é um conceito relativamente recente que se impõe como um valor de círculo máximo cuja abrangência global se situa para além dos tempos breves e espaços curtos. Por isso, a sua avaliação não condescende com números de circunstância e exprime-se mais em tendências sustentadas do que em números redondos e efémeros. O que não significa que não aceite muitos e diversificados indicadores sintomáticos e quantificáveis como ocorre, por exemplo, com a concentração do CO2 na Atmosfera.
A vertente ambiental da sustentabilidade foi a certa altura formulada em termos de responsabilidade geracional. Ora, se é assim, tudo está em jogo já que não se trata apenas de preservar a vida humana num contexto ambiental mais ou menos adverso nem tão pouco, por oposição, de preservar o ambiente numa perspectiva conservacionista redutora em desfavor do homem, aquele para quem tudo, no ditame bíblico, isto é, o ambiente, foi criado.
O problema do ambiente está, antes de mais, na não consonância com os ritmos naturais, muitos deles expressos em ciclos, nomeadamente, os da água e do carbono e o ciclo aberto da radiação térmica, entre outros, com intervenções sobredimensionadas para a capacidade “digestora” do próprio ambiente. É isso que ocorre com a concentração do CO2 na Atmosfera, cujas emissões antropogénicas distorcem o equilíbrio pré-existente à cultura dos combustíveis fósseis.
O caso do CO2 reflecte dois aspectos marcantes do nosso tempo a saber: a alienação criada pela cultura do petróleo na base de recursos energéticos baratos alimentada pela sociedade do consumo e levada ao extremo com a especulação financeira; e a fatalidade da partilha das externalidades negativas por todos ao nível do aquecimento global e das consequentes alterações climáticas. Por isso, a nenhum outro factor de ‘stress’ ambiental como à energia se aplica o ‘leit motiv’ das Nações Unidas: “pensar globalmente e actuar localmente”.
A abordagem das actividades humanas à luz da sustentabilidade não implica o recurso a medidas drásticas de sacrifício das gerações de hoje para benefício das gerações futuras. Antes requer uma atitude de ponderação dos valores à luz de uma nova ética que assenta, naturalmente, e em primeiro lugar, na percepção das capacidades da própria Natureza. A partir daí, dir-se-ia que a chave da sustentabilidade está mais na ‘receita’, isto é, no modo de fazer, ou seja na consciência dos actores que somos todos nós. Santo Agostinho dizia ‘ama e faz o que quiseres’. No mesmo sentido o ‘leit motiv’ das Nações Unidas traduzido, agora e aqui, significa identificar os valores e critérios da sustentabilidade e agir em sintonia.
A prática dos estudos de impacto ambiental ou, até, o exercício da análise do ciclo de vida, são métodos que têm contribuído para uma certa ponderação atempada, por vezes demasiado subjectiva, de um vasto leque de indicadores e de critérios sempre que uma nova actividade está em apreço. Não obstante, importaria levar a que essas práticas pudessem ter lugar em momentos, em qualquer caso, tão a montante da implementação das actividades e contemplassem um tão vasto espectro de efeitos quanto possível. É nesse sentido que vai a avaliação estratégica de impacto ambiental. Mas, porventura, há ainda que ir mais longe de forma mais integrada e, sobretudo, mais fundo, questionando as próprias actividades, a sua razão de ser, a sua forma e a sua dimensão à luz da sustentabilidade.
É neste ponto que uma situação de crise pode ajudar a encontrar melhores caminhos para o futuro. A incerteza sobre os cenários fará, por um lado, com que se passe a ser mais prudente quanto à predominância na decisão dos critérios e das avaliações económicas e a privilegiar, porventura, opções por valores mais perenes, de maior proximidade e de escala mais humana, isto é, de ordem cultural e ambiental.
Fixando-nos apenas no que refere ao impacte da energia no ambiente global, há medidas decisivas entre nós, algumas porventura demasiado técnicas neste contexto, mas objectivas e ilustrativas do que se quer significar porque exequíveis e fortalecedoras do sentido de comunidade. Longe de serem as únicas têm, no entanto, um potencial impacto de expressão relevante sem comportarem investimentos significativos. Assim, elegeríamos as seguintes medidas de carácter imediato:
- Redução da ponta eléctrica (‘peak shaving’), a qual sofreu um aumento a todos os títulos desnecessário e politicamente irresponsável de cerca de 50% nos últimos dez anos. Não se trata de uma medida de austeridade mas de racionalidade, algo na linha do que ocorreu recentemente relativamente às lâmpadas eléctricas correntes mas mais consistente e que agora poderia ser abordado pelo lado da renegociação da potência contratada por cada consumidor e a difusão de relógios/’timers’ para que haja uma distribuição mais uniforme no dia da procura eléctrica de certos equipamentos programando a sua não simultaneidade. Esta medida teria um conjunto de vantagens económicas porque permitiria introduzir uma outra racionalidade na gestão das unidades de produção de electricidade e atenuar a pressão sobre a construção de novos centros electro - produtores de natureza térmica.
- Substituição da electricidade para usos de calor (água quente sanitária, cozinha…) por energia solar térmica e pelo próprio gás natural. O sol é a fonte de energia natural e tecnológica do século XXI, pela via da luz, do calor e da electricidade mas o gás natural é o combustível fóssil de transição, marcadamente mais limpo que os demais e que em usos finais para fins de calor oferece a vantagem de emitir menos de metade do CO2 que a electricidade com o actual ‘mix’ nacional. Não é, por isso, legítimo usar a electricidade para fins de calor, como é favorecido entre nós, quando a sua origem é dominantemente fóssil (mais de 70%). Claro que esta afirmação fundada em razões físicas e ambientais cai por terra quando o decisor político estabelece sem fundamento sério um preço para a electricidade mais baixo do que o seu custo de produção criando uma concorrência para fins de calor ambiente, por exemplo, desfavorável à penetração da água quente solar e do gás natural.
- Promoção da água quente solar para fins sanitários, actualmente o maior consumidor nas famílias portuguesas, criando pequenas e muito pequenas empresas dispersas pelo país instaladoras e gestoras desses equipamentos que deverão ser instalados em condições correctas para poderem prestar os serviços que deles se espera.
As três medidas acima, precedidas, é bem de ver, do restabelecimento de preços ‘reais’ para a electricidade – os casos de consumidores especiais, famílias carenciadas ou empresas, poderiam sempre ter um tratamento diferenciado – constituiriam um passo claro para a sustentabilidade no domínio energético, reduzindo em mais de 20% as emissões de CO2 e favorecendo uma maior racionalidade económico-social, nomeadamente, criando emprego e propiciando um melhor acesso a condições de bem estar num país que é um paraíso de recursos energéticos sustentáveis.
Ao paradigma energético do passado, centralizado e afagador de poderes económico-financeiros, contrapõe-se o paradigma do futuro, marcado pela descentralização, diversificação e eficiência energéticas, pelo acento na gestão da procura em natureza, qualidade e quantidade de energia e pela perspectiva de proximidade que fará do consumidor de energia de hoje o cidadão de amanhã mais robusto na consciência dos valores energético - ambientais.
Felizmente a janela da crise não se espraia sobre um horizonte difuso de ciência ficção alienante e expectante mas, antes, assente em conhecimento amadurecido nas tecnologias disponíveis e nas boas práticas próprias ou alheias, aponta o futuro que começa hoje reclamando o exercício da inteligência e da transparência e o sentido da boa governação da coisa pública, isto é, política a sério.
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