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Nº 003 . MAR09 > opinião
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A mediatização do poder e a realidade ficcionada |
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O espaço público é, por definição o espaço da política. Sendo esta objecto de uma espectacularização mediática cada vez maior, uma visão mais crítica do actual papel dos meios audiovisuais pode suscitar as seguintes dúvidas: estará em curso um processo de hipersaturação informativa em que a densidade e o exagero de imagens, sons e palavras correm o risco de criar um caos (des)informativo, tornando a democracia num simples epifenómeno? Que é feito do prometido potencial emancipatório da revolução digital e informacional? Onde está a “sociedade do conhecimento”?
Conhecimento de quem e para quem? Não estaremos a assistir a uma devastadora substituição do “sujeito político” por massas anónimas de audiências passivas e silenciosas? O tema é antigo, sem dúvida. Desde os anos trinta do século passado, com Adorno, Horkheimer, e mais tarde com Marcuse, Baudrillard e actualmente Chomski, entre outros, que o assunto se tornou objecto de inúmeras controvérsias. Mas hoje, as tendências em curso – e as orientações estimuladas pelos principais lideres políticos – ampliam drasticamente a capacidade de subjugação do sujeito ao mundo das ilusões consumistas, ameaçando anular as possibilidades práticas de exercício pleno da cidadania.
Na era da globalização do século XXI, o “ciberespaço” representa-se como uma revolução digital e material, que contém uma infra-estrutura (as redes de computadores) em rápida expansão global e uma superestrutura (a realidade virtual) presente nos ecrãs dos computadores e da televisão. É a criação de uma espécie de oportunidades de “Presidência doméstica sobre o Mundo Global”. O utilizador imerso num mundo de dados e informação é capaz de captar todos os saberes, viajar sem limites num espaço onde a realidade virtual é mais forte do que a realidade concreta. É uma hiperficção, ao mesmo tempo hiperrealista que permite a qualquer mortal realizar os sonhos burgueses mais ambiciosos (Baudrillard). Parece tratar-se de uma imagem invertida, a imagem de um mundo ficcionado, resultado de uma fuga surreal às identidades fixas e aos constrangimentos e pressões do dia-a-dia, na vida doméstica, no emprego, nas instituições. Uma forma de “expulsar” das preocupações diárias os problemas do mundo real; um mundo que parece possuir um sentido transparente e ao mesmo tempo virtual (Stallabrass). Dito de outro modo, as ilusões podem ter um alcance prático extremamente poderoso, ou seja, a grande diferença entre ficção e realidade é que a primeira precisa de maior dose de convicção.
A Internet e a televisão assumem-se como meios nos quais as pessoas se sentem “representadas” por poderem participar, e projectam-se ou identificam-se com os ícones mediáticos, sem o risco da convivência ou da experiência face-a-face. Esta espécie de Ágora electrónica, mais do que uma utopia, é uma distopia, onde tudo é permitido, visto que estamos no reino da ficção. Cria-se um mundo de ilusões tendente a confundir ainda mais as fronteiras entre o real e o imaginário. Mas os seus efeitos práticos podem ser enormes (positivos ou negativos). Por acção ou por omissão, as fantásticas potencialidades da informação digital e do ciberespaço tanto podem inebriar e alienar, reforçando o poder dos que controlam o mundo, como podem despoletar imensas oportunidades e dar asas a novas capacidades inventivas (individuais e colectivas). As democracias actuais, com todos os problemas que enfrentam, encontram nesses novos meios de comunicação todo um potencial ainda largamente por compreender (e explorar), que está a alterar profundamente a vida social e a chamada “esfera pública”.
As Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) digitais, enquanto instâncias facilitadoras de comunicação, podem ter um papel decisivo na dinâmica democrática das nossas sociedades. Mas, para além da sua importância na eficácia dos serviços, associações, instituições e empresas, etc., interessa sobretudo pensar as NTIC enquanto auxiliares capazes de dar mais transparência ao sistema institucional e, ao mesmo tempo, ampliar e tornar mais efectivos os direitos de cidadania. De um lado, a democracia representativa com todos os seus defeitos e distorções; de outro lado a democracia participativa, os movimentos sociais e as diversas formas de organização da sociedade civil, que evidentemente se debatem também com inúmeras dificuldades. Em ambas as formas as NTICs podem ocupar um papel decisivo e podem acrescentar novos elementos à controvérsia que tem animado as articulações entre essas duas modalidades de exercício democrático.
Porém, as tecnologias – sejam elas quais forem – são sempre socialmente determinadas e, portanto, mesmo admitindo todas as potencialidades da “comunicação digital”, elas não conseguem iludir ou contornar a lógica do poder. E é principalmente de poder (ou de poderes) que se trata. É no poder (político, económico, simbólico, organizacional, pessoal, corporativo, institucional, etc.) e nos inúmeros interesses e formas de controlo, de dependência e de tutela que teremos de buscar os factores de travagem que inibem ou impedem um uso mais transparente, aberto e democrático desses meios e colocá-los ao serviço das instituições políticas e da sociedade.
De facto, a esfera pública é hoje fraca, o que em larga medida se deve ao problema de os meios de comunicação social estarem longe de cumprir o seu papel de mediadores entre o sistema político e a sociedade, e menos ainda estão longe de cumprir o seu papel de formadores da consciência crítica dos cidadãos. Com efeito, não se trata apenas de um “mundo da vida” amplamente colonizado pelo “sistema” (Habermas), que perdeu vitalidade. Mais do que isso, é a dinâmica de mercadorização que, aliada à imperiosa necessidade de acumulação, reproduz desigualdades e cria novas clivagens (e exclusões) em cima das antigas. E são acima de tudo os poderosos mecanismos de fabricação de públicos (dóceis) revertidos em consumidores passivos e individualistas (Chomsky) que, instrumentalizados pelo poder político e as elites económicas, pulverizam as possibilidades de uma consciência crítica e de uma esfera pública mobilizadora dos cidadãos e comunidades.
Aliás, em vez de esfera pública, pode propor-se que se fale entes de “múltiplos públicos” (Nancy Fraser) na sua expressão plural, ou seja, mais do que um suposto “interesse público” definido pelos poderes dominantes (mediáticos ou institucionais), importa ter presente as “esferas públicas subalternas”, situadas à margem dos grandes palcos mediáticos e que operam sob orientações alternativas. É principalmente a partir desses locus (loci) plurais que podem surgir propostas controversas que incorporam visões e formas de contestação entre públicos competitivos capazes de suscitar modelos paritários de participação e de equidade.
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Nº 003 . MARÇO 2009
DOSSIÊ
Raízes da crise
Crise como ameaça
Crise como oportunidade
Crise e pobreza
NOTÍCIAS
DA CORRENTE SOCIALISTA
OPINIÃO
A mediatização do poder
e a realidade ficcionada
A POLÍTICA E A CARICATURA
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